29/06/2026 05:09

Voltaço já teve time feminino imbatível

Região sem futebol feminino vive de lembranças do Volta Redonda de Fubá 

 “Saudoso Voltaço”

Walter Barros

 

Enquanto todas as atenções estão voltadas para os marmanjos da seleção brasileira que disputam a Copa do Mundo, surge a tradicional série ‘perguntar não ofende’: por que Volta Redonda, Barra Mansa e Resende, as maiores cidades da região, não contam com um time de futebol feminino? O Barra Mansa diz que não tem dinheiro, o Voltaço defende um projeto autossustentável, ou seja, espera que o dinheiro chegue junto com as jogadoras, e o Resende não responde. Se recebermos resposta, será publicada em uma de nossas próximas edições. Enquanto isso, vamos mostrar que o Voltaço feminino vive de lembranças que incluem os títulos do Campeonato Carioca de 2009 e da Copa Coca-Cola de 2011, do saudoso técnico Almir Guedes e do coordenador Sabino Cunha, 70. Mas o pontapé inicial aconteceu graças a um ilustre torcedor: o popular Fubá, Flávio Braga, 77, que, com ajuda de outros apaixonados pelo tricolor de aço, criou um time feminino que chegou a jogar de igual para igual com as equipes mais poderosas do estado na época: o Bangu, do bicheiro Castor de Andrade, e o extinto Radar.

 

“Comecei jogando bola com a molecada perto de casa. Naquela época, era muito difícil para as mulheres, havia bastante preconceito. Quando soube que o Voltaço estava formando um time feminino, fui lá e me inscrevi. Foi daí que começou minha amizade com o Fubá, que dura até hoje”, relembra Maria José, a Zequinha, 63. A ex-ponta-direita garante que o time entrava em campo na base do amor pela camisa. E desabafa: “Nunca recebemos nada do Voltaço, nem passagem. O Fubá tirava do bolso dele para todas as despesas. O Voltaço nunca nos apoiou em nada, sempre nos olhou com desprezo”.

 

Antes de criar o ‘time do Voltaço’, Fubá participou das primeiras iniciativas para tentar tornar popular o futebol na cidade, após o extinto Conselho Nacional de Desportos (CND) regulamentar o futebol feminino no Brasil, pondo fim aos efeitos de um decreto assinado por Getúlio Vargas em 1941, durante o Estado Novo, que considerou o esporte “incompatível com as condições e a natureza das mulheres”, deixando as brasileiras por mais de 40 anos fora dos gramados oficiais. Com a chancela da CND, a Liga de Desportos de Volta Redonda (LDVR) criou uma “Assessoria de Futebol Feminino”, coordenada por Fubá. 

 

Ele acrescenta que acumulava também a função de administrador do Raulino de Oliveira, combinação que ajudou no crescimento do futebol feminino, pela formação de equipes que disputavam jogos preliminares aos confrontos masculinos no estádio do Voltaço, além de partidas da Liga. Nessa época, surgiram times femininos como Copa Sete, América, Santos, Clube dos Funcionários, ETPC, Força Jovem e Flalaje. 

 

Algumas dessas equipes acabaram cedendo jogadoras para a formação da equipe do Voltaço, que também jogaria o campeonato da LDVR. “Eu peguei um time de Volta Redonda, o Asa Negra, do Santo Agostinho, peguei o Nova Esperança, de Barra Mansa. Botei pra jogar no Raulino, na preliminar. Aí o negócio foi crescendo, a torcida chegando cedo para ver a ‘Paulo Isidoro’ (Roseli), a Zequinha, a Cristina, a Tida, a Neide, a Helen, a Lurdinha (Baiana), a Turu, a Sebastiana, a Virgínia, a Glorinha. Aí nós fizemos o campeonato, aqui na Liga; o presidente era o Getúlio Albuquerque”, conta.

 

Enquanto Fubá armava o Voltaço, no âmbito estadual, Castor de Andrade jogava pesado na montagem de um plantel feminino do Bangu e o empresário Eurico Lira estruturava a equipe de jogadoras do Esporte Clube Radar. “A dona Wilma, esposa do Castor de Andrade, ajudou a fazer o time e começou a divulgar. Tinha o Radar, que era o time do Eurico Lira, que jogava na praia e passou para o campo. O presidente [do Voltaço] na época, Dr. Pedro Paulo Pires de Melo, me chamou, porque eu já estava envolvido como administrador do Raulino, e perguntou se eu tinha coragem de fazer um time. Eu disse ‘claro que eu tenho’”, detalha Fubá.

 

Em sua estreia, lembra, o Voltaço feminino teve pela frente o todo-poderoso Bangu, de Wilma e Castor de Andrade. “Eu estava machucada e não joguei”, conta  Zequinha. “Nós perdemos de 4 a 1 do Bangu, mas foi muito festejado. A partir dali fomos crescendo, jogando aqui, jogando ali, ganhando aqui, ganhando ali. Ganhamos o campeonato da Liga, depois ganhamos outro campeonato da Liga, jogamos em Barra Mansa, em Resende, em Valença, até em Minas Gerais. Nós nos tornamos um time imbatível na região, jogamos 84 vezes e só perdemos duas, uma para o Radar e uma para o Bangu”, destaca Fubá, acrescentando que o primeiro patrocínio estampado em uma camisa do Voltaço, o de uma vidraçaria, foi para o time feminino. 

 

Apesar da hegemonia local, o sonho do Voltaço feminino de entrar em campo pelo Campeonato Carioca de 1984 ficou pelo caminho, o que levou algumas jogadoras a deixar o clube. “Joguei por muito tempo no Coroados, de Valença, depois que saí do Voltaço”, conta Zequinha. Segundo Fubá, o clube tinha preocupações jurídicas relacionadas a eventuais lesões das jogadoras. “Todas elas trabalhavam, como que a gente ia indenizá-las? Não teria condições. A menina deixou de trabalhar porque estava machucada, a patroa dela não ia pagar, o comerciante não ia pagar. E assim aconteceu, eles (os dirigentes do Voltaço, grifo nosso) entraram num acordo comigo e encerramos o time feminino, porque era uma responsabilidade muito grande”, revela.

 

Para piorar, o futebol feminino perdia força no estado por decisão do “Doutor Castor” de acabar com a equipe do Bangu, cedendo à pressão de conselheiros do clube que não viam com bons olhos a ascensão do time. A decisão também aconteceu após o bicheiro invadir o campo de Moça Bonita, em outubro de 1983, durante a decisão do campeonato estadual contra o Radar, que conquistou o título ao vencer o Bangu por 1 a 0. O que abriu caminho para a hegemonia estadual, nacional e até internacional do time de Eurico Lira, que serviu de base da seleção brasileira no Torneio Experimental da Fifa, na China.

 

O time feminino do Radar acabaria no início da década de 1990 por fatores como falta de patrocínio e esvaziamento da mídia, barreiras que, na avaliação de Fubá, ainda dificultam a retomada do ‘Voltaço de saias’. Apesar disso, o interesse das mulheres brasileiras por esportes como o futebol cresceu 25% entre 2020 e 2025, superando o avanço registrado entre os homens no mesmo período, segundo o estudo da Women and Sports 2026, do Ibope Repucom.

 

O levantamento da empresa de marketing esportivo revela uma contradição: apesar do crescente interesse, meninas ainda encontram barreiras concretas para acessar e permanecer no esporte, afastadas por comentários preconceituosos, ausência de equipes femininas, estereótipos de gênero, gravidez na adolescência e pela chamada economia do cuidado. Desta forma, a sobrecarga de tarefas domésticas e o cuidado de irmãos e familiares, que recaem de forma desproporcional sobre as meninas, roubam o tempo e o espaço que poderiam ser dedicados ao esporte. 

 

Para Ana Nery, especialista em inclusão e gênero da Plan International Brasil, organização que trabalha para romper ciclos de violências contra meninas, criar ambientes seguros e livres de limitações baseadas em gênero é fundamental para ampliar a participação feminina no esporte. “Quando estimulam a curiosidade, respeitam as escolhas das meninas e oferecem diferentes possibilidades de desenvolvimento, as famílias contribuem para criar ambientes livres de limitações, ampliando o acesso ao futebol e a outras práticas esportivas e fortalecendo o direito das meninas de brincar, se desenvolver, participar, ocupar espaços e construir suas próprias trajetórias”, afirma. 

Zequinha também aconselha as jogadoras a não desistirem. “Lutem pelos seus sonhos, nunca desistam por causa dos obstáculos. Quando se tem um objetivo, não existirá nada que possa parar vocês”, pontuou. Ela tem razão. 

Legenda da foto

Lenda viva do Voltaço Feminino, Fubá entra em campo ao lado de Zequinha para relembrar os primórdios do futebol feminino na Cidade do Aço.

 

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