Diretoria do Volta Redonda descarta voltar com o ‘Voltaço de saias’
Walter Barros
A formação de uma equipe de futebol feminino, por ora, não está nos planos do Volta Redonda. Em entrevista exclusiva ao aQui, o vice-presidente do clube, Flávio Horta Jr, indicou que a manutenção de um time profissional requer investimento da ordem de R$ 1 milhão por ano. Ou mais. Ele, inclusive, acrescentou que o Voltaço vive um momento de reestruturação financeira e descartou a formação de equipes amadoras para a disputa de competições profissionais, proposta defendida por entusiastas da modalidade.
Segundo o dirigente, os tempos são outros: o futebol feminino evoluiu, e o dinheiro que custeou o projeto no passado, hoje, é insuficiente. “O Volta Redonda vem passando, nos últimos anos, por um processo de reconstrução, principalmente financeira, por conta de dívidas herdadas de esportes que não são o futebol masculino. Por isso, temos buscado projetos que sejam autossustentáveis. Não adianta tirar recursos do futebol masculino, que é o carro-chefe do clube, para investir em outros esportes que não consigam se sustentar. Hoje, o motivo é uma questão de responsabilidade financeira”, pontuou.
Segundo Flávio Horta, a atual diretoria do Voltaço já até discutiu a retomada do futebol feminino com o poder público e com a iniciativa privada, mas não encontrou um projeto ‘autossustentável’. “Às vezes, as pessoas ainda têm a ideia do futebol feminino de antigamente, mas hoje o futebol é muito caro. Não dá mais para disputar uma competição profissional apenas com atletas amadoras. Estamos falando de um investimento de, no mínimo, R$ 50 mil a R$ 60 mil por mês, e o Volta Redonda, com muita responsabilidade, não tem como assumir esse compromisso hoje”, disparou.
Questionado sobre o plantel feminino que conquistou o Carioca de 2008, contando com aportes da Prefeitura de Volta Redonda, Horta argumentou que “era um outro momento, as coisas eram mais amadoras e aconteciam com menos dificuldade”. De acordo com o diretor do Voltaço, outros custos podem elevar o investimento anual para R$ 1 milhão: “Hoje, para disputar uma partida de futebol feminino, o clube tem custos de arbitragem, transporte e toda a estrutura, que giram em torno de R$ 10 mil a R$ 15 mil por jogo. Além disso, as atletas já não podem mais ser totalmente amadoras, e é preciso contar com comissão técnica e toda uma estrutura”.
Os números apresentados por Flávio Horta Jr podem ser considerados irrisórios, se comparados às cifras apresentadas pelo Relatório Nacional do Futebol Feminino 2025, lançado em dezembro pela Outfield, gestora de investimentos e consultoria no universo esportivo, e ‘Dibradoras’, veículo dedicado à cobertura do futebol feminino. Segundo o estudo, a modalidade também enfrenta retrancas pesadas na elite do futebol nacional, como a não segregação de receitas do futebol masculino. O que favorece narrativas de falta de retorno financeiro e diminui a priorização de equipes femininas. “Está claro que o avanço do futebol feminino no Brasil depende de colaboração, governança e responsabilidade compartilhada entre quem joga, quem gere, quem investe e quem narra. A partir daqui, inauguramos um novo ciclo de responsabilidade coletiva entre clubes, federações, gestoras, atletas, marcas e mídia”, conclui o documento.
A projeção feita por Flávio Horta se aproxima dos investimentos mais modestos feitos pelos principais clubes brasileiros em 2024, ano em que Criciúma e Fortaleza, por exemplo, aportaram respectivamente R$ 880 mil e R$ 1,2 milhão, de acordo com um levantamento da ESPM. O que ajuda a explicar a dificuldade para a retomada do projeto do futebol feminino do Voltaço em 2023. “Fomos procurados por um grupo de pessoas ligadas ao futebol feminino. Eles insistiam que, se pudessem divulgar o interesse do Volta Redonda em retomar a modalidade, conseguiriam buscar os patrocínios necessários”, contou.
Ele foi além. Lembra que, na ocasião (em 2023), o Voltaço teria deixado claro que “o clube tentaria ajudar dentro das suas limitações, mas não poderia assumir novos compromissos financeiros”, por falta de condições. “Esse movimento aconteceu, eles reuniram as pessoas, mas perceberam que o apoio da iniciativa privada e do poder público foi insuficiente diante das demandas que o futebol feminino exige hoje”, emendou.
Entre os que integraram a tentativa de retomada em 2023 estava Sabino Cunha, que defende a formação de uma equipe amadora do Voltaço para a disputa do Campeonato Carioca de 2027, ano em que o Brasil sediará a Copa do Mundo de futebol feminino. Para o coordenador do projeto que culminou com a conquista do Cariocão de 2009 e da Copa Coca-Cola sub-15 em 2011, a estratégia permitiria mais exposição a potenciais investidores, com menor investimento, já que as atletas não seriam contratadas inicialmente. “Para esse primeiro passo, a gente precisa de um aporte de R$ 12 mil por mês, incluindo material, taxa de arbitragem e comissão técnica remunerada”, estima Sabino.
Em entrevista ao aQui, o prefeito Neto até disse que toparia ‘entrar em campo’ apoiando a retomada do futebol feminino, dependendo, é claro, da viabilidade legal e econômica do projeto. O que, na avaliação de Sabino, pode contar com o ‘Guerreiras de Aço’ como porta de entrada de recursos vindos através de leis de incentivo fiscal. Trata-se de um instituto que tem como vice-presidente o ex-coordenador do Voltaço feminino. Mas Sabino também se queixa da falta de interesse do clube pelo futebol amador: “Se tiver interesse de ter uma equipe feminina de alto rendimento, de qualidade, esse é o começo. Estamos apenas começando, do primeiro patamar, que é uma peneira, depois organizamos o time, com objetivo de buscar uma série C. Depois, vamos para o segundo patamar, mesclando jogadoras mais experientes, com estrutura maior, até porque vai ter aporte da CBF”.
A tentativa de retomada do Voltaço feminino em 2023 aconteceu meses após o então presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, declarar que todos os times da Série A, B, C e D do Brasileirão teriam que manter equipes femininas até 2027, proposta que não foi adiante após a queda de Ednaldo do comando da entidade máxima do futebol no país. Flávio Horta Jr, no entanto, nega que o tricolor de aço tenha tirado o pé do acelerador após o recuo da CBF: “Entendemos que a CBF busca estimular a modalidade, mas os próprios clubes têm sentido que os custos são altos e acabam sendo repassados para eles. É claro que, se houver um movimento das federações e da CBF para fomentar o futebol feminino também de forma financeira, isso facilita”.
O Relatório Nacional do Futebol Feminino 2025 também aponta para uma janela de estruturação do futebol feminino no Brasil até a realização da Copa do Mundo de 2027, envolvendo federações, marcas e patrocinadores. Os desafios, caso sejam superados, podem resultar em um divisor de águas, jogando a favor do otimismo de Sabino Cunha. Do contrário, o mercado da bola pode prolongar o jogo duro contra a formação de equipes femininas de clubes como o Voltaço, endossando a cautela de Flávio Horta Jr.
Manutenção de um time feminino profissional pode chegar a R$ 1 milhão por ano, ou mais