Por Olívia Cristina Perez e Sávia Barreto*
A pergunta sobre a permanência do PT como força política reaparece periodicamente no debate brasileiro. A cada derrota eleitoral, crise de popularidade ou avanço de forças conservadoras, anuncia-se mais uma vez o esgotamento do Partido dos Trabalhadores. Mas, quando o olhar se volta para o Piauí, a resposta parece apontar claramente em outra direção.
Em 2026, o governador Rafael Fonteles, do PT, lidera com ampla vantagem a disputa pela reeleição. Sua candidatura é apoiada por uma ampla coalizão que reúne diferentes partidos e lideranças políticas, evidenciando a capacidade de articulação construída pelo grupo que governa o Piauí há mais de duas décadas.
Essa trajetória começou com a eleição de Wellington Dias para o governo do estado, em 2002. Desde então, o PT permaneceu no centro da política piauiense, seja diretamente no governo, seja como eixo de uma coalizão que incorporou diferentes grupos e partidos.
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Dias representou uma mudança na composição das elites políticas que tradicionalmente comandavam o estado. Rafael Fonteles, eleito em 2022, simboliza uma nova etapa, associada a um perfil mais técnico e à valorização da gestão. A permanência do PT, portanto, não se explica pela repetição da mesma fórmula, mas pela capacidade de transformar sua forma de governar e ampliar suas alianças sem romper com a identidade política construída ao longo do tempo.
Estado oferece larga vantagem para Lula
Simbolicamente, o ato de Lula em Teresina, em 9 de setembro, evidenciou a força do PT no Piauí. Ao lado do governador Rafael Fonteles, do ministro e ex-governador Wellington Dias, da ex-governadora Regina Sousa (todos petistas) e dos candidatos ao Senado Marcelo Castro (MDB) e Júlio César (PSD), Lula reuniu uma frente política em um evento que contou com 50 mil participantes.
A cena sintetiza a combinação entre continuidade e transformação que ajuda a explicar a permanência do PT no centro da política estadual. Lula, vestido de vermelho, reafirmou a identidade histórica do partido, enquanto Rafael Fonteles representa uma forma renovada de apresentá-lo: em 2022, sua comunicação adotou o branco, associado à renovação e à gestão. Na mesma imagem, convivem a continuidade do vínculo com Lula e a transformação na forma de apresentar o partido — síntese da resiliência petista no Piauí.
A visita também materializou a associação entre os governos federal e estadual por meio de obras, investimentos e resultados de gestão. Nesse processo, opera uma lógica de crédito: Lula transfere capital político a Rafael, enquanto o governador associa os resultados de sua administração ao governo federal.
Os números traduzem a força do PT no Piauí. Na pesquisa AtlasIntel/MeioNorte, divulgada em 3 de setembro, Rafael Fonteles aparece com 62,4% das intenções de voto para governador, contra 20,9% de Joel Rodrigues (Progressistas). Considerados os votos válidos, Fonteles chega a cerca de 71%. Impressiona não apenas a distância persistente entre os candidatos, mas também a baixa rejeição do governador: 72% dos eleitores aprovavam seu trabalho, contra 23% que o desaprovavam. Apenas 21% dos entrevistados disseram que não votariam nele de jeito nenhum, ante 27% de Joel Rodrigues.
A combinação entre trajetória do PT, aprovação elevada e baixa rejeição ajuda a explicar a solidez da vantagem de Fonteles e indica que a oposição ainda não conseguiu construir um antirrafaelismo capaz de ameaçar sua liderança.
Isso não significa ausência de vulnerabilidades. Teresina é a principal. Em 2024, o PT perdeu a eleição da capital mesmo mobilizando Lula, Wellington Dias e Rafael Fonteles em apoio a seu candidato. A cidade concentra quase 600 mil eleitores, em um colégio estadual superior a 2,7 milhões, e abriga o eleitorado mais urbano e competitivo do estado. Não é irrelevante, portanto, que a agenda presidencial de setembro tenha ocorrido justamente ali, combinando políticas públicas visíveis e mobilização eleitoral.
O peso do Piauí no petismo nacional é maior do que seu tamanho eleitoral sugere. O estado reúne pouco mais de 2,7 milhões de eleitores, uma fração do eleitorado brasileiro, mas oferece ao PT uma das maiores margens relativas de vantagem do País. Lula obteve 60,73% dos votos válidos no segundo turno de 2002 e 77,31% em 2006; Dilma Rousseff alcançou 69,98% em 2010 e 78,30% em 2014; Fernando Haddad chegou a 77,05% no segundo turno de 2018; e Lula registrou 76,86% em 2022. Em uma eleição presidencial apertada, estados como o Piauí deixam de ser apenas redutos simbólicos: margens superiores a 50 pontos percentuais podem produzir centenas de milhares de votos líquidos de vantagem.
Disputa pelo Senado segue lógica própria
Se a disputa pelo governo parece previsível, o Senado concentra o principal paradoxo político do Piauí. As pesquisas divergem sobre a posição de Ciro Nogueira, revelando uma eleição ainda aberta: a AtlasIntel aponta Marcelo Castro à frente, seguido por Júlio César e Nogueira, enquanto o Datafolha mostra empate técnico entre os três na soma dos votos e vantagem de Ciro como primeira opção. Com duas vagas e cerca de 30% do eleitorado ainda entre indecisos, brancos e nulos, a disputa evidencia os limites das fronteiras entre governo e oposição.
Embora Nogueira esteja politicamente no campo oposto a Lula, sua posição como presidente nacional do PP e ator relevante no Congresso introduz um cálculo que ultrapassa a disputa estadual. Para Lula, apoiar Marcelo Castro e Júlio César não significa necessariamente concentrar todo seu capital político na derrota de Nogueira, revelando como a estratégia eleitoral no Piauí também considera a preservação da governabilidade nacional.
A principal lição do Piauí para a pergunta sobre a força do PT é que a permanência de um partido no poder não depende de permanecer igual, mas de conseguir se transformar sem perder sua identidade política. Desde 2002, o PT ampliou alianças, incorporou adversários, renovou lideranças, adotou novas agendas e formas de governar, ao mesmo tempo em que preservou sua ligação com Lula e com seu eleitorado.
Essa capacidade de adaptação ajuda a explicar sua permanência no centro da política piauiense. Mas a mesma estratégia também produz novos desafios: uma coalizão cada vez mais ampla precisa acomodar interesses distintos e responder aos problemas que permanecem no estado.
A eleição de 2026, portanto, reforça uma conclusão: no Piauí, o PT não perdeu sua força porque soube mudar. A questão é até quando conseguirá continuar se transformando sem deixar de ser reconhecido como o mesmo grupo político.
* Olívia Cristina Perez é doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e professora de Ciência Política da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Sávia Barreto é jornalista, mestra em Comunicação e doutoranda em Políticas Públicas pela UFPI.
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