Casas noturnas na região perdem espaço entre geração Z e Millennials
Walter Barros
Um boneco solitário colocado na entrada do antigo CCRR simboliza o declínio das boates no Sul Fluminense. Mas o fechamento do clube, localizado no Centro Histórico de Resende, pode ser compreendido pela mudança de hábito da Geração Z e dos Millennials, que, de maneira geral, deixaram para trás as noites dançantes das boates de Volta Redonda, Barra Mansa e cidades vizinhas, pela procura por hábitos mais saudáveis. Um argumento que não convence quem culpa a falta de empreendedorismo regional e a alta carga tributária do país pelo desaparecimento das famosas casas noturnas.
De acordo com um levantamento da Uliving, 62% dos universitários trocam as baladas por encontros em casa, concentrando o lazer ao círculo mais próximo dos amigos dentro da própria moradia estudantil, índice superior ao dos que apontam colegas da faculdade ou do trabalho como suas principais conexões sociais. Segundo o estudo da empresa, as moradias estudantis vêm assumindo um papel que vai além da habitação. Para muitos jovens, esses espaços se tornaram pontos centrais de convivência, onde amizades são construídas a partir da rotina compartilhada e de interações presenciais frequentes.
“Existe uma mudança clara na forma como os jovens se relacionam. A socialização continua sendo importante, mas acontece cada vez mais em ambientes conectados à rotina, onde há sensação de pertencimento, praticidade e segurança. O estudante busca relações mais próximas e recorrentes, e não apenas encontros pontuais”, explica o CEO da Uliving, Ewerton Camarano. Para o executivo, a mudança também altera a dinâmica dentro das moradias estudantis.
Além de atividades organizadas, como eventos de integração, ações de bem-estar e programações voltadas à comunidade, grande parte das conexões acontece de forma espontânea em áreas compartilhadas, como cozinhas, salas de estudo, espaços de convivência e coworkings. “Muitas amizades começam em situações simples do cotidiano: estudantes que cozinham juntos, dividem momentos de estudo ou compartilham experiências da vida universitária. Esse convívio frequente acaba fortalecendo vínculos de forma muito natural”, completa Camarano.
Sérgio Mamma, 59 anos, conhece como poucos os meandros da transformação comportamental dos jovens, o que se confunde com a carreira do DJ, radialista e empresário de eventos de Volta Redonda. Uma história que começou quando ele tinha 14 anos e já promovia ‘Hi-Fis’ em casas no Bela Vista, Vila, Laranjal, com os amigos. “Eu frequentava o ‘Hi-Fi’ do Funcionários e também a ‘PET Som’ das sextas-feiras. Um dia, eu fui lá perto da cabine e o diretor, na época o Luiz Xavier, tirou o DJ da época, que não estava em boa condição para tocar na noite, e não tinha ninguém para tocar. Ele falou: ‘Você faz’? Eu falei: ‘Faço’”, conta. Frequentador de carteirinha de boates como Fantasy e Saloon, Mamma participaria depois da inauguração do ‘Porão’, “o maior sucesso da noite de Volta Redonda”, além de acumular passagens por grandes boates do Rio de Janeiro.
Quando questionado sobre a transformação no comportamento dos jovens, Mamma salienta que o fenômeno está acontecendo no mundo inteiro, não só na região. “A pandemia influenciou muito, porque, além de vir uma nova geração, que não curte esse tipo de divertimento e que sofre uma influência muito grande das mídias sociais, foi preponderante para mudanças de hábito, como alimentação. As pessoas não querem mais sair, são mais econômicas, menos arriscadas. Os jovens curtem mais eventos esporádicos, como Rock In Rio, shows ao ar livre, barzinhos que não cobram por entrada”, explica.
Pedro Oliveira, 40, é outro que não deixa passar despercebido o comportamento da Geração Z e dos Millennials quando o assunto é balada. O DJ, de Volta Redonda, iniciou sua carreira em 1997, de forma amadora e despretensiosa, como um hobby, tocando em pequenas festas na garagem de amigos. “Ao longo do tempo, a brincadeira foi virando fonte de renda e profissão. Não só frequentei, como tive a oportunidade de me apresentar em casas que foram icônicas na região, como Boate Porão, Hi-Fi do Clube dos Funcionários, Pullse Club, Aero Clube, Cana Café, Celeiro Resende, Penedo Dance House, entre outros”, acrescenta.

Acerca da transformação no comportamento dos frequentadores, Pedro avalia que, em tempos passados, a conexão entre o público e o artista era mais intensa. “Consigo analisar essa mudança com a chegada forte da internet. Após 2005, o relacionamento entre pessoas ficou muito mais virtual, o que resultou em um público mais frio e de consumo rápido de qualquer coisa. A facilidade hoje de poder ter tudo na palma da mão, áudio e vídeo, acarretou desinteresse em sair para escutar música. No passado, tínhamos artistas que detinham músicas em versões exclusivas, o que criava esse ponto alto em muitos momentos em uma balada. A chegada do MP3, a popularização da internet e dos computadores, facilitou o acesso ao que, no passado, ficava restrito nas mãos de poucos”, opina.
O produtor Bruno Carvalho, 38, é outro que começou a pegar gosto pela noite ainda na época de colégio. “Sempre gostei de agitar churrasco, festinhas sociais. Fui pegando gosto e, na época da faculdade de Administração, fiz um curso de produção de eventos com um dos caras que organizavam o Rock In Rio”, relata. Promoter da Pullse durante sete anos, ele acredita que as baladas do passado enchiam mais pelo gosto de beber. “Os jovens de hoje em dia não são muito de beber, de socializar tanto, acho que a facilidade das redes sociais pra se marcar um encontro, ficar com alguém, também ajudou bastante para esse fator. Antigamente, as pessoas saíam para curtir, conhecer gente nova, tentar ficar com alguém. Hoje em dia as pessoas fazem isso por rede social, Instagram, Tinder. E, com acesso à informação, acredito que a garotada resolveu se cuidar mais”, define.
Na interpretação de uma fonte do aQui, que pediu para não ser identificada, a narrativa da mudança de comportamento não se sustenta. “Isso depende da cidade. Você vai a cidades hoje que têm várias casas noturnas, boates, todo mundo bombando. Volta Redonda é diferente, a parada é outra. Eu não concordo com essa história de que acabaram as boates, não tem boate pra ir: o custo é caro, com muito imposto. A RAJ tava bombando, foi em 2024, geração Z, todas as gerações, bombando. Faziam vários shows, os caras ganhavam R$ 100 mil por semana. Não tem casa noturna porque Volta Redonda é um lugar estranho, e o Brasil tem o problema da quantidade de impostos”, dispara.
Estranhezas e impostos à parte, uma pesquisa do DataFolha, realizada em 12 capitais brasileiras, aponta que mais da metade dos jovens não frequentam baladas ou vão menos de uma vez por ano. Ao mesmo tempo, discussões relacionadas à saúde mental, excesso de tempo de tela, redução do consumo de álcool e preocupações com segurança urbana têm influenciado a forma como os universitários escolhem socializar e construir relações. Enquanto isso, as pistas de boates que se consagraram no passado da região sobrevivem apenas na memória de quem viveu essa época.