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São Paulo comprou seu histórico Palácio dos Correios. E agora, Rio?

Foto Cleomir Tavares / Diario do Rio

No próximo 30 de julho, o histórico edifício da antiga Agência Central dos Correios, na Avenida Primeiro de Março, será levado a leilão, como revelou com exclusividade no DIÁRIO a jornalista Bruna Castro. A poucos dias deste momento decisivo, vale olhar para São Paulo, que fez um movimento contrário: lá, a própria Prefeitura decidiu adquirir seu histórico Palácio dos Correios para mantê-lo a serviço do poder público, transformando-o na sede de importantes órgãos municipais e reforçando sua estratégia de revitalização do Centro – muito posterior à ideia carioca de reviver sua região central. A pergunta que naturalmente se impõe é: por que o Rio de Janeiro não poderia fazer o mesmo?

A comparação, porém, talvez nem seja inteiramente justa. O edifício paulistano é um importante símbolo da história de São Paulo. O imóvel carioca ocupa um lugar ainda mais singular. Construído ainda no Segundo Reinado, nos idos de 1870, ele foi, durante décadas, a sede do Correio Geral, de onde se administravam os serviços postais de todo o Brasil quando o Rio de Janeiro era a capital do Império e, depois, da República. Enquanto o edifício paulista sempre esteve ligado à história administrativa de São Paulo, o do Rio foi a sede nacional dos Correios brasileiros. Não representava apenas uma cidade; representava um país.

É por isso que o DIÁRIO DO RIO passará a referir-se a ele como Palácio do Correio Geral. Mais do que uma antiga agência central, aquele quarteirão inteiro foi concebido para abrigar a administração postal brasileira, recebendo diariamente cidadãos, autoridades e correspondências que ligavam um país de dimensões continentais. Seu significado histórico ultrapassa em muito os limites do Rio de Janeiro.

É verdade que os Correios enfrentam prejuízos bilionários e buscam reorganizar seu patrimônio. Não há nada de ilegítimo em vender ativos para enfrentar dificuldades financeiras. A questão é outra. Alguns edifícios transcendem o patrimônio de uma empresa, ainda que estatal. Tornam-se patrimônio da memória nacional. O Palácio do Correio Geral é um desses casos.

Também é verdade que um eventual comprador privado estará obrigado a respeitar o tombamento federal do imóvel e todas as exigências do IPHAN. Ninguém imagina que aquele edifício possa ser descaracterizado. Mas preservar suas fachadas não é a única questão em jogo. O debate é saber se um palácio que ocupa um quarteirão inteiro, concebido para servir ao público deve continuar cumprindo uma função pública, mantendo suas portas abertas à população, ou tornar-se apenas mais um grande empreendimento de acesso restrito.

Essa discussão ganha ainda mais sentido porque o Rio vem apostando no Centro como nunca antes. Desde a derrubada da Perimetral, no primeiro mandato do prefeito Eduardo Paes, sucederam-se investimentos públicos e privados de bilhões de reais na região. Vieram a Orla Conde, o VLT, a revitalização da Zona Portuária, os bem sucedidos programas Reviver Centro e Reviver Cultural, além de uma série de incentivos que recolocaram o coração histórico da cidade no mapa dos investimentos imobiliários.

Hoje já não é apenas a Prefeitura que acredita no Centro. O mercado voltou a acreditar também. Novos empreendimentos residenciais surgem, edifícios corporativos são convertidos, restaurantes, hotéis, galerias, centros culturais e pequenos negócios devolvem movimento a ruas que passaram décadas esvaziadas. O Centro voltou a ser visto como lugar de futuro.

E poucos pontos sintetizam tão bem essa transformação quanto o entorno do Palácio do Correio Geral. Em poucos metros estão o Centro Cultural Banco do Brasil, o Centro Cultural dos Correios — instalado em outro edifício e que não deve ser confundido com o imóvel que irá a leilão —, o Paço Imperial, a Casa França-Brasil, o Arco do Teles, igrejas históricas, cafés, restaurantes, centros culturais e um dos conjuntos urbanos mais extraordinários do Brasil. Não se trata de um prédio isolado, mas de uma peça central de um bairro onde história, cultura, gastronomia, turismo e atividade econômica convivem diariamente.

É justamente por isso que talvez tenha chegado o momento de a Prefeitura dar mais um passo em sua política para o Centro. Em vez de manter alguns institutos, autarquias e repartições espalhados por diferentes regiões da cidade — algumas delas em imóveis de elevado valor imobiliário —, por que não concentrar parte dessas estruturas no antigo Correio Geral? O Instituto Pereira Passos, instalado em Laranjeiras, é apenas um exemplo de órgão cuja presença no Centro faria todo sentido. Além de reforçar a revitalização da região, a medida racionalizaria a ocupação dos imóveis públicos e permitiria avaliar a alienação de edifícios menos estratégicos.

A operação poderia ser inteligente sob todos os aspectos. Os Correios receberiam os recursos de que necessitam para enfrentar sua situação financeira. A Prefeitura incorporaria um dos edifícios públicos mais importantes da história nacional. O Centro ganharia milhares de pessoas circulando diariamente. E um palácio concebido para atender brasileiros continuaria exercendo sua vocação original: servir ao público.

São Paulo entendeu que ocupar seu Palácio dos Correios também é uma forma de revitalizar o Centro. O Rio tem diante de si uma oportunidade talvez ainda mais significativa. Afinal, estamos falando do edifício que um dia comandou os serviços postais de todo o Brasil.

O leilão está próximo. Ainda há tempo para discutir se o antigo Palácio do Correio Geral será tratado apenas como um ativo imobiliário ou se continuará exercendo a vocação para a qual nasceu: servir ao público, no coração da cidade e da história do Brasil.

Alguns edifícios são apenas imóveis. Outros fazem parte da própria história do Brasil.

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