
Tradicionalmente marcada por disputas internas entre correntes e tendências, a mais petista das cidades fluminenses, Maricá vive, hoje, um rompimento político sem precedentes. O prefeito Washington Quaquá (PT) rompeu publicamente com o ex-prefeito Fabiano Horta (PT), seu aliado histórico, após a confirmação da pré-candidatura de Horta a deputado federal. A ofensiva marca mais um capítulo na longa lista de brigas protagonizadas por Quaquá com antigos parceiros, desta vez, com potencial de atingir até o governo Lula.
Quaquá pretende lançar o próprio filho, Diego Zeidan, atual presidente estadual do PT e secretário de Habitação de Eduardo Paes (PSD), e também o presidente da Companhia de Desenvolvimento de Maricá (Codemar), o ex-ministro Celso Pansera, na disputa por vagas na Câmara dos Deputados. Com pouco mais de 160 mil eleitores, Maricá dificilmente teria força política para eleger três deputados federais, o que colocou antigos aliados em campos opostos.
Ataque direto ao ex-prefeito
A artilharia foi disparada na última sexta-feira (28), durante o lançamento de um shopping no município, evento do qual Fabiano Horta não participou. Em discurso, Quaquá acusou o antecessor de tê-lo isolado politicamente durante suas gestões (2017/2024) e de ter esvaziado o papel de Diego Zeidan quando este era vice-prefeito.
“O Fabiano me sucedeu na prefeitura e eu, de certa maneira, fui afastado de todas as decisões em Maricá. Aí, meu filho Diego foi vice-prefeito. Eu, através do Diego, tentei fazer umas coisas, como, por exemplo, o programa “O sol nasce para todos”. Pedi R$ 30 milhões, de um orçamento de R$ 7 bilhões, e o dinheiro não foi dado. Diego foi escanteado. Mas Deus sabe o que faz. Voltei a ser prefeito de Maricá”, afirmou.
Denúncias sobre programas sociais
Na sequência, Quaquá acusou a gestão anterior de descontrole nos programas sociais do município, incluindo o pagamento irregular da moeda social Mumbuca.
“Nós estamos fazendo visita de casa em casa. O que tem de morto recebendo Mumbuca! O que tem de gente que botou endereço em terreno baldio. O que tem de gente que não conseguimos achar, é uma enormidade”, disse, sem apresentar dados oficiais.
Críticas avançam sobre quadros ligados a Brasília
O rompimento, porém, não se limitou ao plano local. Quaquá ampliou o ataque a figuras com trânsito no governo federal, o que acendeu o sinal de alerta no PT nacional. Sem citar nominalmente, o prefeito fez duras críticas a um “malandro que veio de Brasília”, em referência a Leonardo Alves, ex-secretário de Planejamento na gestão de Fabiano Horta.
Em fevereiro de 2024, a Justiça aceitou denúncia do Ministério Público contra Leonardo Alves, acusado de receber propina em contratos de construção do Hospital Municipal Che Guevara. Quaquá afirmou que o ex-secretário teria tentado direcionar recursos do Fundo Soberano de Maricá para o Banco Master.
“Tentou colocar o Fundo Soberano de Maricá no Banco Master. Master! Nós avisamos que isso ia quebrar. Dois bilhões iriam para o Master, se a gente não interfere”, disparou.
Alvos no governo federal e risco de desgaste com Lula
Outro nome citado nos bastidores dos ataques de Quaquá é o de Olavo Noleto, que foi secretário de Comunicação de Maricá e presidente da Codemar durante gestões de Fabiano, embora tenha sido indicado originalmente pelo próprio Quaquá. Noleto também foi secretário-executivo da Secretaria de Relações Institucionais, número dois de Alexandre Padilha no governo Lula.
Hoje em evidência em Brasília, Noleto é apontado como um dos favoritos para assumir o comando da articulação política do governo federal, caso a ministra Gleisi Hoffmann deixe o cargo para disputar o Senado pelo Paraná. As críticas do prefeito de Maricá a um quadro próximo ao Planalto são vistas, dentro do PT, como um movimento arriscado, capaz de respingar diretamente no presidente Lula.
Histórico de conflitos e isolamento político Não é a primeira vez que Quaquá entra em rota de colisão com aliados. Conhecido pelo estilo combativo e pela retórica agressiva, o prefeito acumula atritos com lideranças locais, estaduais e nacionais do PT, o que tem aprofundado seu isolamento político dentro do partido no Rio de Janeiro.