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Proibir tecnologia na favela não combate o crime; apenas pune a juventude

Imagem gerada por Inteligência Artificial

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Everton Gomes

A recente controvérsia em torno da capacitação de jovens de comunidades para a pilotagem de drones acendeu, mais uma vez, um alerta sobre como o debate público no Rio de Janeiro costuma cair na armadilha do preconceito territorial. A tese de que ensinar tecnologia a um jovem da periferia serve como treinamento para o crime é uma falácia que combate o sintoma errado, pune quem mais precisa e perpetua a exclusão.

Falo sobre isso com a propriedade de quem conhece a realidade da ponta e os caminhos da transformação. Para mim, nascido no Morro da Mangueira, foram as oportunidades da escola pública — como aluno do Colégio Pedro II — que abriram as portas para que eu cursasse Direito na UFRJ, fizesse mestrado na UFF, escrevesse livros, me tornasse professor, presidisse órgãos públicos, atuasse como secretário municipal de Trabalho e Renda e ingressasse nos quadros da Polícia Civil. A minha história não é uma exceção a ser celebrada isoladamente, mas a prova de uma regra: cada oportunidade que se abre na vida de um jovem periférico é uma vaga a menos ocupada no sistema prisional amanhã.

A tecnologia é neutra. Drones, assim como computadores, softwares ou automóveis, são instrumentos de trabalho. O crime organizado não espera editais públicos nem cursos comunitários para aprender a operar equipamentos. Sustentar que a capacitação técnica deve ser vedada em áreas vulneráveis sob o pretexto da segurança é institucionalizar a exclusão e assumir que todo jovem de favela é um suspeito em potencial.

Essa barreira imposta aos jovens da periferia torna-se ainda mais grave diante das transformações do mercado global. Segundo dados do Fórum Econômico Mundial, 59% da força de trabalho global precisará de requalificação até 2030, em meio a um processo de automação que elimina postos tradicionais e aprofunda o desemprego estrutural. No Brasil, cerca de 37 milhões de empregos estão expostos ao impacto das novas tecnologias, enquanto apenas 7% dos trabalhadores atuam no setor digital, que concentra as melhores remunerações. Ao mesmo tempo, o país enfrenta um apagão de mão de obra qualificada: entre 2019 e 2024, a demanda por profissionais de tecnologia superou em 200 mil a quantidade de novos formados.

O mercado de operação de drones vai muito além do setor audiovisual. Trata-se de uma profissão em forte expansão, requisitada para inspeção de obras, topografia, logística, agricultura de precisão, mercado imobiliário e serviços urbanos. Ao negar essa formação, o Estado não impede o tráfico de usar drones; apenas empurra a juventude periférica para a informalidade ou para as barreiras da exclusão digital, impedindo que conquiste um trabalho formal e renda digna. Oportunizar acesso à tecnologia e à qualificação profissional é a extensão natural do papel que a escola pública sempre teve: emancipador e protetor da juventude.

Em vez de enxergar a capacitação com desconfiança, o poder público deveria liderar o processo. A formação técnica em ambientes vulneráveis é o cenário ideal para uma política de soft power e aproximação institucional. O que impede, por exemplo, que secretarias de Trabalho atuem em parceria com setores de tecnologia e aviação das próprias forças de segurança?

Quando agentes de segurança participam dessas iniciativas, ministrando módulos sobre legislação aérea, segurança operacional e uso ético da tecnologia, quebra-se o muro da desconfiança. A polícia deixa de ser vista exclusivamente sob a ótica da repressão e passa a atuar como vetor de cidadania e orientação profissional.

No combate à criminalidade, a inteligência e a repressão qualificada são indispensáveis, mas incapazes de resolver o problema sozinhas se a fábrica de vulnerabilidades continuar operando a pleno vapor. A exclusão digital e a falta de perspectivas econômicas são os verdadeiros combustíveis para o recrutamento do tráfico.

Gerar oportunidades pela educação e pela inovação sempre será mais eficiente, mais barato e mais humano do que tentar remediar a violência com o isolamento social. O Rio de Janeiro precisa superar a lógica do medo paralisante e entender que o futuro tecnológico pertence aos jovens que querem trabalhar, e não às facções que tentam cooptá-los.


As opiniões expressas neste artigo são de exclusiva responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição do jornal.

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