05/11/2026 20:00

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Por que a crise no Ueno Bank derrubou o presidente do Paraguai?

A renúncia de Santiago Peña à Presidência do Paraguai, anunciada nesta quinta-feira 5, foi o desfecho de uma crise política desencadeada pelo colapso do Ueno Bank. O escândalo colocou sob suspeita as relações entre o governo, a autoridade monetária e o grupo empresarial controlador do banco.

A situação se agravou quando o Partido Colorado, legenda do presidente, anunciou apoio ao impeachment, deixando Peña sem sustentação até mesmo dentro de sua própria base.

A oposição acusava o presidente de conflito de interesses, favorecimento da instituição financeira e uso indevido de recursos públicos. Peña foi acionista da holding controladora do Ueno até março de 2025, já durante seu mandato, iniciado em 2023. 

O Ueno Bank, controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez, cresceu rapidamente e chegou a reunir aproximadamente 3 milhões de clientes, cerca de 60% da população adulta do Paraguai. A instituição também administrava aproximadamente 850 milhões de dólares em recursos públicos, incluindo valores da previdência social.

O Banco Central determinou a intervenção no banco em 3 de novembro, depois de identificar problemas graves em sua situação financeira. O índice de solvência caiu para 5,56%, menos da metade dos 12% exigidos pela legislação paraguaia.

As investigações apontaram empréstimos de aproximadamente 146 milhões de dólares a empresas relacionadas ao grupo controlador, entre setembro de 2025 e maio de 2026. Também identificaram uma operação suspeita de simulação da venda de uma carteira de créditos inadimplentes de 74,4 milhões de dólares, supostamente financiada pelo próprio banco por meio de empresas intermediárias.

Com a intervenção, as atividades foram suspensas e milhões de clientes perderam temporariamente o acesso aos depósitos.

Por que o presidente foi envolvido?

Além de ter sido acionista da holding, Peña governou durante o período em que o Ueno ampliou sua presença na administração de recursos públicos.

A oposição questionou por que o banco recebeu depósitos de órgãos estatais e previdenciários, apesar dos alertas sobre sua situação financeira. Também cobrou explicações sobre possíveis alterações nas regras de conflito de interesses e a atuação das autoridades responsáveis pela fiscalização.

Outro personagem central foi Carlos Carvallo, presidente do Banco Central indicado por Peña. Antes de assumir a autoridade monetária, em 2023, Carvallo havia comandado a antiga Financeira Ueno. Ele renunciou em 3 de novembro, após a intervenção na instituição.

O Ministério Público abriu investigação criminal, e oito pessoas ligadas ao banco foram presas. Entre elas estão dirigentes e ex-dirigentes da instituição e integrantes do Grupo Vázquez.

A oposição apresentou um pedido de julgamento contra Peña e o vice-presidente Pedro Alliana. A iniciativa ganhou força com o agravamento das manifestações de correntistas e a pressão sobre o governo.

O momento decisivo veio nesta quinta-feira, quando o Partido Colorado, que governa o país e tem 36 deputados, anunciou apoio ao impeachment. A posição foi comunicada por Horacio Cartes, ex-presidente do Paraguai e uma das principais lideranças da legenda.

Com isso, o presidente perdeu o respaldo do próprio partido. Mesmo com a renúncia, a Câmara dos Deputados aprovou o impeachment de Peña com 78 votos favoráveis.

No pronunciamento de renúncia, o presidente afirmou que não pretendia colocar seu cargo acima do bem-estar do País, pediu desculpas à população e defendeu a devolução dos recursos depositados no banco.

Assista:

O que acontece agora?

Peña havia sido eleito em 2023 para um mandato que terminaria em 2028. Com a saída da Presidência, a sucessão cabe ao vice-presidente Pedro Alliana, conforme as regras constitucionais paraguaias.

A crise, porém, não termina com a mudança no comando do Executivo. As investigações sobre as operações do Ueno Bank e as suspeitas envolvendo recursos públicos continuam, assim como o processo de restituição dos depósitos aos clientes.

O Fundo de Garantia de Depósitos prevê cobertura de até 228,3 milhões de guaranis por cliente, aproximadamente 38 mil dólares. O Banco Central também iniciou pagamentos antecipados para parte dos correntistas.

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