Por volta das 11h deste sábado 3, a Avenida Paulista já estava tomada por milhares de manifestantes que aguardavam a chegada do presidente Lula (PT) no seu último ato antes do primeiro turno. Um sentimento agridoce tomou os manifestantes, que celebravam com ar de esperança e confiança na vitória, ao mesmo tempo em que havia uma nuvem de despedida, já que existe a possibilidade de ser a última caminhada com Lula.
O prefeito Ricardo Nunes (MDB), e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliados do opositor Flávio Bolsonaro (PL), tentaram jogar água no chope do petista, ao colocar as forças policiais para reprimir a manifestação, sob a justificativa de que a Avenida Paulista não havia sido liberada para o ato. O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo, entretanto, garantiu a realização do ato por 5 votos a 1.
Ainda assim, antes mesmo da chegada de Lula, a Guarda Civil Metropolitana já pressionava os responsáveis pelo carro de som para liberar a via, mesmo que a multidão não parasse de crescer. A pressão policial foi tamanha que a caminhada precisou começar mais cedo, e um mar vermelho tomou conta da Rua Augusta, um tradicional ponto da contracultura paulista.
Ao longo de dois quilômetros, dezenas de moradores acenavam e balançavam bandeiras das janelas dos prédios, em apoio aos manifestantes. No carro de som, o presidente Lula respondeu à tentativa do prefeito de censurar o ato: “A Paulista não é da direita, é do povo brasileiro”.
Siga a Carta no Discover e receba as notícias que realmente importam.
Acompanhado do vice Geraldo Alckmin (PSB), do candidato ao governo do estado, Fernando Haddad (PT), das duas candidatas ao Senado, Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB), e da primeira-dama Janja, o presidente fez um apelo ao voto dos idosos, e pediu à militância que mobilizasse os mais velhos para comparecerem às urnas neste domingo.
O presidente Lula (PT) no último ato de campanha do primeiro turno das eleições de 2026. Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação
Entre os manifestantes, além de inúmeros candidatos e lideranças de movimentos sociais, havia diversas famílias, mães com crianças pequenas, grupos de adolescentes e idosos com muita disposição. Vestindo uma camisa do Brasil e empunhando uma bandeira do PT, o maquiador Gilmar Fernandes, de 67 anos, não titubeia ao defender o presidente.
“Lula é doutor em democracia, doutor em soberania e doutor em políticas públicas, ele sabe como governar o País”. Assim como Lula, o manifestante também foi metalúrgico, e identifica-se com o presidente não só pela profissão, mas pelos valores democráticos e a defesa da soberania. “É preciso conscientizar a população. Não é sobre polarizar, é sobre defender o seu país”.
A produtora de eventos Luciana Campos saiu cedinho de Diadema para participar da caminhada, acompanhada do filho pequeno, de 6 anos. Para ela, levar o garoto para a rua é um ato pedagógico e uma semente para o futuro. Trabalhadora regida pela CLT, ela reforça a importância da consciência de classe e não esconde a preocupação com o cenário político após a conclusão deste mandato.
“Lula está encerrando com chave de ouro. Não se rebaixou, não ficou criticando outros candidatos, mostrou propostas e falou a realidade”, avaliou, elogiando a opção de Lula por focar em podcasts e sabatinas em vez de embates diretos. Ao mesmo tempo em que comemora, Luciana projeta os próximos anos com inquietação: “Tô com o coração cheio, mas preocupada: quem vai nos representar daqui a quatro anos?”
Mais à frente na marcha, a professora aposentada da rede municipal e pesquisadora Cirena Calixto da Silva encarou a viagem desde Caraguatatuba, no Litoral Norte, para vivenciar o momento. Com atuação ligada à agroecologia e à militância negra, ela descreveu o sentimento desta última marcha como um misto de “taquicardia e esperança imensa”.
Para Cirena, a continuidade de uma gestão progressista representa o resgate da dignidade no cotidiano de quem trabalha: “É a possibilidade de uma gestão em que a gente sai pela rua e sorri. Estamos felizes porque estamos entre iguais, pessoas com alinhamento ideológico”.
Com a bandeira do Brasil estendida sobre os ombros, o advogado Edson Gustavo, de 35 anos, trouxe de São Mateus, na Zona Leste paulistana, a memória política de sua estirpe. Ele contou que o engajamento social é uma herança familiar que remonta ao bisavô — que organizava reuniões clandestinas do Partido Comunista aos domingos em casa —, transmitida ao avô, à mãe e mantida por ele.
O advogado descreveu o nomeou como “dor da consciência de classe” ao ver vizinhos da periferia não reconhecerem as transformações sociais em seus territórios, e justificou a presença da bandeira nacional na passeata: “A bandeira é nossa. Ela não pode ser instrumento de um atentado justamente contra o que ela representa”.
