02/11/2026 11:20

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Apenas viver será pouco (ou manifesto para os dias de luta)

O negócio da família entrou na lista fascista e o pai está desesperado, percebeu que o movimento caiu de forma abrupta, há gritos vindos da rua, ofensas digitais e ao vivo. Ele diz à filha adolescente para espalhar na escola que apenas o tio votou no Lula, somos todos bolsonaristas, viu?, em seguida se tranca no banheiro e chora, chora, porque a loja é o resultado de um esforço de décadas de trabalho e ele não sabe para onde correr.

A cidade é a mesma, lado oposto do balcão. A advogada encosta seu carro de 300 mil reais na garagem e aborda com rispidez a moça que ela trata por colaboradora e que faz faxina, cozinha, lava e passa uma vez por semana em sua casa. Diz que pensou direito e acha um absurdo o valor cobrado por ela quando fica em casa como babá. Mas é o preço de uma diária, responde a moça.

Minha filha já tem 5 anos, trabalho mesmo dá nenhum, você fica na frente da televisão o tempo inteiro, mexendo no celular, se quiser continuar aqui em casa vai reduzir esse valor pela metade, entendido? A moça abaixa a cabeça, não sabe para onde correr. A advogada entra em casa, empertigada, gada, gada, gada, coloca na geladeira o vinho argentino que custou mil reais, é o último, merda, diz, preciso pedir mais para a distribuidora.

Na mesmíssima rua, o empresário acorda com a cabeça dolorida, é o uísque, não, é a lembrança da carreata do fim de semana, tudo tão amarelo, tão brazil, deu em nada. Enrola o baseado e vai fumar no banheiro. Pensa em deus, os bandidos continuam vivos, malditos, o vermelho sangue ainda corre dentro deles, malditos. Traga profundamente, prende o ar, precisa ligar depois do banho para seu contato na boca, pedir o delivery com urgência, a maconha acabou, quem vive sem maconha diante da ameaça comunista?

O entregador chega rápido e haveria de retrucar: e quem vive em um mundo pautado pela hipocrisia, marechal? Pelas falsas narrativas, doutor? Pelo ódio? Pela ganância? Fé cega, faca amolada. O mundo é feito de muita gente, muitas gentes, nem todas gentes.

Apenas viver (acordar, trabalhar, comer, dormir) será pouco a partir de agora. Pouquíssimo. Porque em todos os dias teremos luta. Relaxar fará o fascismo se aproximar mais, sorrateiro, pronto para cortar nossos dedos, nossas línguas, nossas vontades de igualdade.

Cabe então um manifesto. Porque, graças a deus, mentira, graças às pessoas, brava gente, manifestar-se é permitido.

Passo um: não se pode mais tratar apoiador de fascista como maluco ou excêntrico ou coitadinha-é-só-uma-tia. As coisas estão escancaradas e os adultos precisam responder por suas escolhas. Quem se enxerga nas ideias fascistas é fascista e deve ser tratado como fascista.

Posso dois: atue politicamente, da maneira como puder. Ao escovar os dentes, ao tomar café. Eu escrevo, uma cantora canta, um vendedor de mariolas vende mariolas. Toda ação leva uma ideia adiante.

Passo três: proteja-se, parece exagero, não é.

Passo quatro: passo a passo, quem sabe, um dia apenas nos baste viver.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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