Ao menos 25 deputados do Partido Democrata assinaram uma carta para questionar o papel do governo de Donald Trump na fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) após sua derrota para Lula (PT) no segundo turno da eleição presidencial. O perdedor, investigado pela Polícia Federal em diversas frentes, desembarcou em Miami na quarta-feira 28.
Os democratas miram o papel do Departamento de Estado na fuga de Flávio e enviaram a carta ao secretário Marco Rubio na noite de quinta. Eles listaram uma série de perguntas sobre o envolvimento da pasta no planejamento e o processo que garantiu um visto para o senador.
Leia a íntegra do texto:
“Escrevemos para solicitar esclarecimentos imediatos sobre o papel do Departamento de Estado, se houver, na facilitação da noticiada saída do Brasil do senador brasileiro Flávio Bolsonaro e de sua entrada nos Estados Unidos após uma ordem do Supremo Tribunal Federal brasileiro restringindo suas viagens internacionais. De acordo com reportagens de 27 de outubro de 2026, o senador Bolsonaro teria deixado o Brasil rumo aos Estados Unidos após perder a eleição presidencial brasileira e descumprir uma ordem judicial que determinava a entrega de seus passaportes. A suposta ordem foi emitida no âmbito de uma investigação criminal que envolve o senador em suposta lavagem de dinheiro e má conduta financeira. Com especial preocupação, reportagens indicam que uma autoridade de alto escalão do Departamento de Estado declarou que os Estados Unidos concederiam vistos ao senador Bolsonaro e a integrantes de sua família e permitiriam sua entrada no país. Outras reportagens levantaram dúvidas sobre se autoridades norte-americanas estavam cientes ou envolvidas nos preparativos para sua partida.
“Esses desdobramentos suscitam questionamentos significativos sobre o processo decisório do Departamento, seu conhecimento a respeito da ordem da corte brasileira e se algum integrante do governo dos EUA prestou assistência antes ou depois da expedição dessa ordem. A questão central é direta: o Departamento de Estado, a Embaixada dos EUA no Brasil ou qualquer outra agência do governo norte-americano prestou assistência ao senador Bolsonaro para viajar ou ingressar nos Estados Unidos, a despeito da noticiada restrição judicial brasileira à sua partida? Caso tal assistência tenha ocorrido, o Congresso precisa compreender o que foi concedido, quem autorizou, quando ocorreu e quais informações estavam disponíveis para as autoridades norte-americanas à época. Por conseguinte, solicitamos respostas por escrito às seguintes perguntas:
- “Quando o Departamento de Estado, a Embaixada dos EUA em Brasília ou qualquer outra missão diplomática norte-americana tomou conhecimento pela primeira vez de que o Supremo Tribunal Federal brasileiro havia ordenado que o senador Bolsonaro entregasse seus passaportes e restringido sua possibilidade de deixar o Brasil?
- Alguma autoridade do governo dos EUA recebeu, analisou ou discutiu uma cópia da ordem judicial antes da noticiada partida do senador Bolsonaro do Brasil?
- “Antes de autorizar ou facilitar qualquer visto ou preparativo de viagem, o Departamento de Estado verificou se o senador Bolsonaro tinha permissão legal para deixar o Brasil?
- “O Departamento de Estado estava ciente de que o senador Bolsonaro teria descumprido o prazo fixado pela Justiça para a entrega de seus passaportes? Se sim, quando o Departamento tomou ciência desse descumprimento e quais medidas, se houver, foram tomadas em seguida?
- “O Departamento de Estado emitiu, aprovou, acelerou, renovou ou facilitou de qualquer outra forma um visto para o senador Bolsonaro ou para qualquer integrante de sua família durante este período eleitoral?
- “Uma autoridade de alto escalão do Departamento de Estado teria sido citada afirmando que o Departamento concederia vistos ao senador Bolsonaro e à sua família e permitiria sua entrada nos Estados Unidos. Quem autorizou essa decisão?
- “Vistos foram concedidos ou outros arranjos de imigração foram feitos antes de o Departamento de Estado tomar conhecimento da ordem judicial brasileira? Em caso afirmativo, o Departamento reconsiderou, suspendeu ou reavaliou esses procedimentos após ser informado da ordem?
- “Algum funcionário do Departamento de Estado, representante da Embaixada dos EUA, integrante da Casa Branca ou outro representante do governo norte-americano comunicou-se, direta ou indiretamente, com o senador Bolsonaro, sua família, advogados, assessores políticos ou intermediários a respeito de sua viagem para os Estados Unidos?
- “Alguma autoridade do governo norte-americano prestou auxílio em reservas de voo, documentação de viagem, transporte, acesso a aeroportos, agendamentos consulares, planejamento de entrada ou outros preparativos logísticos ligados à noticiada partida ou chegada do senador Bolsonaro?
- O Departamento de Estado coordenou ações com o Departamento de Segurança Interna (DHS), a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP), os Serviços de Cidadania e Imigração dos EUA (USCIS) ou qualquer outra agência federal no que se refere à chegada prevista do senador Bolsonaro? Em caso afirmativo, descreva a natureza e o cronograma dessa coordenação.
- “O Departamento de Estado consultou o Departamento de Justiça ou qualquer outra agência federal sobre as implicações de facilitar a entrada de uma figura política estrangeira que teria saído de seu país em violação a uma ordem judicial?
- “O Departamento de Estado avaliou as possíveis consequências diplomáticas para as relações entre os EUA e o Brasil, incluindo a possibilidade de que o auxílio ao senador Bolsonaro seja interpretado como interferência nos processos judiciais ou nos assuntos políticos internos do Brasil?
- “O Departamento de Estado recebeu qualquer solicitação de autoridades brasileiras sobre a localização, a situação de viagem ou a possível entrada do senador Bolsonaro nos Estados Unidos? Em caso afirmativo, como o Departamento respondeu?
- Qual foi a base jurídica para a emissão ou concessão de vistos para o senador Bolsonaro e sua família? Quais categorias de visto e critérios de elegibilidade foram considerados, e o Departamento levou em conta as investigações criminais em andamento envolvendo o senador Bolsonaro ao tomar essa decisão?
- “Alguma autoridade do governo dos EUA sediada na Argentina ou no Equador atuou em conjunto com o senador Bolsonaro em relação ao seu itinerário de viagem?
“Tendo em vista as sérias dúvidas suscitadas por essas notícias, solicitamos uma resposta por escrito às perguntas acima até 13 de novembro de 2026. Solicitamos ainda que o Departamento disponibilize autoridades competentes para uma sessão de esclarecimentos (briefing) à equipe técnica do Congresso dentro desse mesmo prazo.
“O povo norte-americano e o Congresso possuem um legítimo interesse de fiscalização em entender se recursos diplomáticos e migratórios dos Estados Unidos foram empregados para facilitar a viagem de uma figura política estrangeira sob tais circunstâncias. A transparência é sobremaneira importante nos casos em que os acontecimentos noticiados envolvem um procedimento judicial estrangeiro, relações bilaterais sensíveis e a aplicação coerente das diretrizes diplomáticas e migratórias dos Estados Unidos.
“Aguardamos sua resposta ágil e completa.”