03/10/2026 01:56

Mulheres: maioria na urna, minoria no poder

por Substrack de Antônio Mariano

(Nota inicial: este artigo foi escrito antes da desistência da candidata Major PM Elaine Gonçalves a vice-governadora da chapa de Anthony Garotinho, que a substituiu pelo ex Subtenente PM André Monteiro.)

Desde ontem (16 de agosto), a campanha eleitoral começou e milhares de candidatos saíram às ruas para conquistar o meu, o seu, o nosso voto.

Dentro do enorme universo de eleitores, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e dissecados em uma excelente matéria do portal Tempo Real, o eleitorado do Rio de Janeiro é de maioria feminina, maduro e concentrado em grandes regiões do estado. Dos 12.857.388 de eleitores aptos a votar, 54% são mulheres.

Atualmente parece óbvio o peso do voto feminino dentro do cenário eleitoral mas, para isso, precisamos fazer uma breve digressão sobre a luta que foi chegar até aqui. Apesar de a democracia ter nascido na Grécia Antiga (país que só permitiu esse voto em 1952), apenas em 1893 as mulheres puderam ir às urnas pela primeira vez, na Nova Zelândia. Itália e França? Somente após o fim da Segunda Guerra Mundial. A Suíça, considerada uma das democracias mais avançadas do mundo? Em 1971. E o Brasil nessa história? A legislação garantiu o voto feminino apenas em 1932, ou seja, há pouco menos de 100 anos.

Neste ínterim, a mulher saiu de um papel secundário, quase terciário, na cena política brasileira para ser o principal ativo eleitoral de um candidato. Há quase 30 anos foi instituída a lei de cota de gênero (Lei 9.504/1997) que determina que, no mínimo, 30% dos candidatos devem ser de um gênero. Apesar de a lei não mencionar que esses 30% devem ser de mulheres, a lei acabou sendo popularmente conhecida como “cota de mulheres”, dada a baixa representação feminina nos parlamentos Brasil afora.

Cenas recentes, como a briga de Michelle Bolsonaro com seu enteado Flávio, mostram a importância de um eleitorado feminino cada vez mais engajado, seja ele progressista ou conservador. O que antes era uma preocupação da esquerda, hoje se tornou um movimento que rodeia todos os espectros ideológicos (novamente, vide a força da Michelle dentro das hostes conservadoras).

E, apesar da nítida maioria feminina dentro do eleitorado fluminense, no último debate da Band, pouco (quase nada, na verdade), se falou a sério sobre propostas de políticas públicas voltadas a essa parcela da sociedade. Dessa forma, observamos nos últimos anos uma “tokenização” da mulher nas campanhas eleitorais.

Longe do mundo do “token digital”, trago aqui o termo cunhado por Rosabeth Moss Kanter, que em 1977 levantou a bola de que token seria a forma de representação de um grupo minoritário dentro de um outro grupo majoritário. É a diversidade para inglês ver, sem, ao menos por enquanto, distribuição de fato de poder político. Ou seja, a mulher, que embora responda pela maior parcela da sociedade, ainda é considerada minoria, se levarmos em consideração sua representação dentro do jogo político.

No caso do estado do Rio, essas representações são variadas, apesar de terem o objetivo de (tentar) dialogar com essa parcela expressiva do eleitorado. Das cinco principais candidaturas, temos o caso da candidata a vice que representa uma populosa região do estado, além do grupo político ao qual pertence. Outras por ideologia, além de duas que dizem representar a pauta da segurança pública. No final das contas, promoveram a mulher a estepe e chamaram de conquista. Até quando?

P.S.1: Para não dizer que não falei das flores, o Rio conta com uma única candidatura feminina na cabeça de chapa para governador, a Juliete Pantoja, do Unidade Popular. Mas você sabe quem é?

P.S.2: E nas principais chapas a Presidente da República, nem a vice as mulheres foram indicadas. Que fase…

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KASSAB & CAIADO & RÁDIO & TV

Desde o final do ano passado, eu já apontava para que 1) Ratinho Jr. provavelmente não seria candidato a Presidente (algo que muitos já consideravam sacramentado) e 2) que Ronaldo Caiado precisaria fazer um esforço maior para ter o apoio das elites do Brasil. Isso tudo pode ser lido neste artigo, publicado na revista Diálogo Político.

Mais recentemente também comecei a acreditar que Caiado deverá ser fortemente beneficiado pela falta de coligações, já que, com cada partido concorrendo individualmente, o tempo de rádio e televisão se concentra em poucos. E como bem declarou Kassab recentemente, o tempo de TV deles mais do que quadruplicou e agora quem terá propaganda disponível serão Lula (5 minutos e 32 segundos), Flávio Bolsonaro (4 minutos e 20 segundos), Caiado (2 minutos e 20 segundos) e Augusto Cury (36 segundos). O que era um passivo, se transformou em ativo.

Foto: Divulgação/PSD

Caiado, de fato, vem realizando uma série de encontros desde o início do ano, com as mais diferentes esferas de poder (econômico, social, midiático e político) para se fazer conhecido e apresentar suas ideias. Sua estratégia também mudou de alguns meses para cá, quando começou a atacar frontalmente Flávio Bolsonaro, ao dizer que “liderança não é herdada” e que ele não tem experiência administrativa. Caminho semelhante é adotado por Renan Santos (Missão) desde o princípio, mas com maior virulência e acidez em seus ataques.

Em reunião fechada, no Rio de Janeiro, Kassab respondeu a uma pergunta feita por mim sobre quais seriam as dificuldades de crescimento da chapa do PSD. Respondeu que a chave para crescimento nas pesquisas, é convencer os indecisos e os eleitores da direita não bolsonarista. Diferentemente do que se acreditava, de forma quase consensual, Caiado poderá, sim, ser uma alternativa à direita, se souber direcionar sua mensagem a esse público, sem grandes ataques ao PT. Afinal, o eleitor do Lula não vai votar nele.

Voltarei a esse tema ao longo da campanha.

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PONTO FACULTATIVO

Inaugurando uma nova seção dentro desta newsletter, trago o “Ponto Facultativo”: veja, leia ou ouça se quiser. Mas fica a dica!

Nesta edição, um podcast que está rolando e um Substack que vale demais seguir.

“O berro do boi” é um excelente podcast investigativo da jornalista Consuelo Dieguez, da revista piauí. Narra a história dos irmãos Joesley e Wesley Batista à frente da maior empresa de proteína animal do mundo. Já está no terceiro episódio, com novos episódios toda terça.

“Palanque”, do jovem e brilhante jornalista João Paulo Saconi, é seu mais novo projeto desde que se formou no mestrado em Columbia. Palanque é a newsletter de furos e notícias exclusivas que João tem feito, principalmente sobre a campanha eleitoral deste ano. O primeiro artigo foi sobre o uso de inteligência artificial e vale demais ficar ligado no que saiu e no que ainda vai sair.

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