Os dados sobre a utilização da frota aérea oficial do Governo do Estado do Rio no primeiro semestre de 2026 mostram duas realidades distintas. O levantamento é do portal Tempo Real.
Parte das aeronaves foi empregada em operações de saúde, como o transporte de pacientes em estado grave, equipes médicas e órgãos destinados a transplantes.
Os registros também revelam os deslocamentos feitos por Cláudio Castro antes de sua renúncia ao cargo de governador, em 23 de março, e os nomes que o acompanhavam nos últimos meses de mandato.
Alguns desses passageiros passaram a ocupar novos espaços na política fluminense. Outros foram citados ou investigados em operações policiais realizadas posteriormente.
Cláudio Castro fez 28 voos em aeronaves oficiais
Antes de deixar o Palácio Guanabara, Cláudio Castro realizou 28 voos em aeronaves oficiais do estado durante 2026.
Depois dele, o passageiro mais frequente foi o então secretário estadual do Ambiente e Sustentabilidade, Bernardo Rossi, com 11 embarques registrados.
Também aparecem nas planilhas o atual presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Douglas Ruas; o vice-presidente da Casa, Guilherme Delaroli; a então primeira-dama Analine Castro; e o deputado estadual Bruno Dauaire, que comandava a Secretaria de Habitação.
Bernardo Rossi acompanhou Castro em 11 voos
Os 11 voos de Bernardo Rossi foram realizados ao lado de Cláudio Castro. A presença constante nas aeronaves reforça a proximidade do então secretário com o núcleo político que comandava o Governo do Estado.
Poucos dias antes da renúncia de Castro, Rossi deixou a Secretaria de Ambiente para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados.
O ex-secretário voltou ao noticiário depois de ser mencionado em uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que autorizou a Operação Compliance Zero.
Na investigação, a Polícia Federal apura um suposto esquema de favorecimento ao empresário Ricardo Magro, controlador da Refit, por meio da atuação de agentes públicos estaduais.
Ao autorizar a operação, Moraes citou indícios de um possível “engajamento multiorgânico” da Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade em benefício do grupo empresarial.
Bernardo Rossi não foi alvo de mandado na operação e nega qualquer irregularidade.
Voos de Douglas Ruas se concentraram em março
Antes de embarcar nas aeronaves oficiais em 2026, Douglas Ruas já havia sido apresentado como o nome do PL para disputar o Governo do Estado.
O anúncio foi feito por Flávio Bolsonaro, em 24 de fevereiro, quando Ruas ainda ocupava o cargo de secretário estadual das Cidades.
Os registros mostram sete voos de Douglas Ruas, todos realizados depois do anúncio de sua candidatura e concentrados no mês de março, nas semanas anteriores à saída de Cláudio Castro.
Em 5 de março, Ruas fez dois deslocamentos ao lado do então governador, do assessor Telmo Nolding e do ajudante de ordens C. Falconi.
Três dias depois, em 8 de março, participou de outro voo sem a presença de Castro, acompanhado apenas pela equipe de apoio.
Em 13 de março, Ruas voltou a utilizar uma aeronave oficial em uma agenda com o então prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella. O último registro ocorreu em 21 de março, dois dias antes da renúncia do governador, ao lado de Bruno Dauaire e do então chefe de gabinete de Castro.
Menos de um mês depois, Douglas Ruas deixou o Executivo estadual para assumir a presidência da Alerj.
Guilherme Delaroli fez cinco viagens com o governador
Outro integrante da cúpula da Alerj que aparece nas planilhas é o vice-presidente da Casa, Guilherme Delaroli.
O deputado realizou cinco voos em aeronaves oficiais entre janeiro e março. Todos os deslocamentos foram feitos ao lado de Cláudio Castro.
Naquele período, Delaroli chegou a assumir interinamente a presidência da Assembleia após a prisão de Rodrigo Bacellar, permanecendo no cargo até a eleição de Douglas Ruas.
Márcio Canella aparece em um voo oficial
O ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella, aparece uma vez nos registros da frota aérea estadual.
O voo ocorreu em 13 de março, ao lado de Douglas Ruas, sem a presença de Cláudio Castro.
Na época, Canella era um dos principais aliados do então governador na Baixada Fluminense e estava cotado para ocupar uma das vagas ao Senado na chapa apoiada pelo PL.
Em 7 de julho, Márcio Canella foi preso durante a sexta fase da Operação Unha e Carne, da Polícia Federal, depois que um fuzil foi encontrado em um veículo ligado a ele.
Dias depois, o ministro Alexandre de Moraes autorizou a soltura do ex-prefeito, com uso de tornozeleira eletrônica e cumprimento de outras medidas cautelares. A investigação segue em andamento.
Primeira-dama, assessores e seguranças também aparecem na lista
A então primeira-dama Analine Castro embarcou em sete voos, todos ao lado do marido.
Também aparecem repetidamente nas planilhas o assessor especial Telmo Nolding e os integrantes da equipe de segurança C. Falconi e Cláudio Barbosa, responsáveis por acompanhar o então governador em seus compromissos oficiais.
Voos políticos caíram após a renúncia de Castro
A utilização das aeronaves mudou após a saída de Cláudio Castro do governo, em 23 de março.
Entre 1º de janeiro e a data da renúncia, foram registrados 52 voos com autoridades. Os deslocamentos consumiram 126 horas e 35 minutos de operação.
Entre 24 de março e 30 de junho, já sob o comando do governador em exercício Ricardo Couto, foram nove deslocamentos de natureza política ou institucional, com duração total de 30 horas e 29 minutos.
No período analisado, Ricardo Couto utilizou uma aeronave oficial apenas uma vez, para cumprir uma agenda institucional.
Com a redução das viagens de autoridades, as missões de saúde passaram a representar a maior parte da utilização da frota.
Das 168 operações realizadas no primeiro semestre de 2026, 105 foram destinadas ao transporte de pacientes, equipes médicas ou órgãos para transplantes. O número corresponde a 62,5% de todos os voos registrados.