29/06/2026 09:16

Região do 171 – Jornal Aqui

POLÍCIA: Volta Redonda registra quase dez casos de estelionato por dia; idosos são as principais vítimas

Mateus Gusmão 

Basta um telefonema convincente, uma mensagem pelo celular ou a visita inesperada de um falso funcionário de uma empresa pública para que anos de economia desapareçam em poucos minutos. Em tempos de serviços cada vez mais digitalizados, o estelionato se transformou em um dos crimes que mais crescem no país e tem feito vítimas de todas as idades. Afinal, é pule de dez que qualquer leitor do aQui já tenha recebido uma mensagem no WhatsApp de um bandido se passando por um amigo ou parente para pedir um empréstimo… Com urgência. E muitos devem conhecer alguém que caiu no golpe.

Os casos de estelionato, segundo dados oficiais, cresceram consideravelmente no Sul Fluminense nos últimos anos. Pior: de acordo com o Instituto de Segurança Pública (ISP) do Estado do Rio, somente entre janeiro e abril deste ano foram registrados 1.115 casos na 93ª DP, em Volta Redonda. Na prática, isso significa uma média de quase dez ocorrências por dia na cidade do aço. Em Barra Mansa, no mesmo período, foram 506 registros cerca de quatro por dia. Em todo o estado do Rio, o número chegou a 55 mil ocorrências.

Os números, claro, despertaram as autoridades. Um levantamento divulgado pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio mostra um dado ainda mais preocupante: os idosos estão entre as principais vítimas dos criminosos. Cerca de 25% das vítimas de estelionato têm mais de 60 anos, conforme dados do ISP. Somente em 2024, foram mais de 35 mil idosos que caíram no famigerado golpe do 171. 

Ainda de acordo com o instituto, os registros enquadrados no Estatuto do Idoso revelam que, em 51,4% dos casos, o agressor possuía algum vínculo de proximidade com a vítima, seja por parentesco, união afetiva, amizade ou vizinhança. O levantamento também aponta que filhos ou enteados estão entre os principais autores das ocorrências. Outro dado alarmante é que 63,3% dos casos aconteceram dentro da residência da própria vítima.

Um dos exemplos desse tipo de crime aconteceu com a aposentada Sandra Jeremias Raymundo, de 73 anos. Quem descobriu o golpe foi a filha, Bianca Jeremias Raymundo. Ao verificar o extrato do INSS para fazer a declaração do Imposto de Renda da mãe, Bianca encontrou um empréstimo consignado que nunca havia sido contratado. Pouco tempo depois, descobriu que criminosos haviam aberto contas bancárias em nome da mãe, redirecionando seus benefícios previdenciários para uma nova conta.

“Quando perguntei, minha mãe me contou que duas pessoas vieram aqui em casa dizendo que um dos cartões de crédito dela havia sido cancelado. Tiraram foto dela e do RG, e a partir daí o golpe foi aplicado. Entrei em contato com as instituições bancárias, mas em um dos bancos o empréstimo consignado já havia sido realizado. Tivemos que reunir extratos, matérias jornalísticas sobre esse tipo de golpe e boletim de ocorrência para entrar com um processo. Em dezembro do ano passado, ganhamos a causa e tudo foi resolvido”, relatou Bianca.

Ela contou ainda que houve uma segunda tentativa de golpe, quando um criminoso se passou por ela e pediu à aposentada o pagamento de um boleto. Segundo Bianca, o episódio abalou profundamente a mãe. “Ela ficou muito mal, desanimada e preocupada. Hoje, não resolve mais nada relacionado a dinheiro ou banco e deixou tudo para eu cuidar. Inclusive, não atende mais ligações se o número não estiver salvo na agenda”.

O caso está longe de ser isolado e reforça a preocupação com o crescimento dos golpes financeiros e das fraudes virtuais direcionadas à população idosa. O presidente da Comissão de Assuntos da Pessoa Idosa da Alerj, deputado Munir Neto (SDD), afirma que esse tipo de violência vem crescendo e exige atenção permanente. “Entendemos que o enfrentamento da violência contra a pessoa idosa passa não apenas pelo fortalecimento da rede de proteção, mas também por ações permanentes de orientação, educação digital e conscientização. Acompanhamos essa realidade com bastante atenção e buscamos apoiar iniciativas que ampliem a segurança, a autonomia e a proteção dos direitos da população idosa”, afirmou.

Para Munir Neto, a violência praticada dentro do ambiente familiar representa um dos maiores desafios para as políticas públicas, justamente por acontecer longe do olhar da sociedade. “O agressor, muitas vezes, é alguém do núcleo familiar. Casos de violência psicológica, negligência, abandono e violência patrimonial podem causar danos profundos e duradouros. Além disso, outro fator preocupante é a subnotificação, já que muitas vítimas têm receio de denunciar”, comentou o parlamentar volta-redondense. 

Avanços na legislação

Na tentativa de ampliar a proteção aos idosos contra crimes financeiros, a Alerj vem discutindo novas medidas. Recentemente, a Comissão de Constituição e Justiça aprovou o Projeto de Lei 3.050/24, que prevê ações preventivas e protetivas para combater a violência patrimonial e financeira contra pessoas idosas. A proposta ainda será votada pelo plenário da Casa de Leis.

O estado também passou a contar com a Lei 11.195/26, de autoria do deputado Anderson Moraes (PL), sancionada no último mês. A norma estabelece sanções administrativas para práticas discriminatórias contra idosos e reforça a proteção à dignidade e aos direitos dessa parcela da população. “O objetivo é coibir práticas discriminatórias e dar maior efetividade às garantias já previstas na Constituição e no Estatuto do Idoso, assegurando respeito e dignidade às pessoas idosas”, justificou o parlamentar. A lei prevê multa equivalente a 150 UFIR-RJ, atualmente cerca de R$ 744, com os recursos destinados ao Fundo para Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa.

Foto: Erick Quintanilha

Confira abaixo os registros de estelionato nas delegacias do Sul Fluminense entre janeiro e abril deste ano.

Cidade Registros de estelionato 

Volta Redonda 1.115

Barra Mansa 506

Barra do Piraí 115

Piraí 44

Resende 405

Itatiaia 64

Pinheiral 46

Rio Claro 22

Porto Real 60

 

Alerj inclui crime de stalking em campanhas de combate à violência contra a mulher 

O crime de stalking, caracterizado pela perseguição reiterada que ameaça a integridade física ou psicológica da vítima, passará a integrar as campanhas de conscientização contra a violência à mulher no estado do Rio de Janeiro. A Lei 11.163/26, dos deputados Carlos Macedo (REP), Elika Takimoto (PT) e Dani Monteiro (PSol), já está em vigor desde o mês passado.
A medida altera a Lei Estadual 9.658/22, que instituiu uma campanha anual de conscientização sobre violência psicológica contra a mulher, para incluir também ações educativas e informativas sobre o crime de perseguição. O objetivo é ampliar o conhecimento da população sobre essa forma de violência e incentivar a denúncia. De acordo com o texto, a campanha deverá divulgar informações sobre a legislação federal que tipifica o crime de perseguição, além de orientar as vítimas sobre os canais de denúncia disponíveis, como o Disque 180, serviço nacional de atendimento às mulheres em situação de violência.
A deputada Dani Monteiro (PSol) afirmou que a iniciativa surgiu a partir do aumento dos registros e da necessidade de ampliar a conscientização sobre uma forma de violência ainda pouco reconhecida pela sociedade. “Estamos falando de centenas de mulheres que procuraram ajuda após serem vítimas de perseguição, mas sabemos que esse número pode ser ainda maior por causa da subnotificação. Quando enxergamos essa realidade, fica evidente a necessidade de atualizar a legislação estadual para incluir o stalking nas campanhas de conscientização e ampliar a informação sobre um crime que ainda é pouco reconhecido pela sociedade brasileira, ainda mais no nosso estado”, pontuou.
Dani destacou que muitos comportamentos abusivos ainda são tratados de forma equivocada, dificultando a identificação da violência pelas vítimas e pela população em geral. “Ainda há muita dificuldade em reconhecer o crime como violência. Quantas mulheres já ouviram que aquilo era só insistência, ciúme ou alguém que não aceitava o fim de uma relação? O problema é que, muitas vezes, o que parece algo menor já é uma violação da liberdade e da segurança daquela mulher. A gente precisa parar de normalizar comportamentos que geram medo e sofrimento e passar a tratá-los pelo que são: violência”, complementou.
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, os registros de stalking contra mulheres cresceram 34,5% no Brasil entre 2022 e 2023, passando de 57.294 ocorrências para 77.083. Já em 2026, o país registrou o primeiro trimestre mais letal da série histórica para as mulheres, com 399 vítimas de feminicídio entre janeiro e março, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Foto gerada por IA

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