Projeto MAPEAR da Polícia Rodoviária Federal identificou 17.687 pontos vulneráveis no Brasil no último biênio; Rio de Janeiro é o segundo estado com mais pontos críticos do país
A Polícia Rodoviária Federal (PRF) apresentou nesta quarta-feira, dia 6, os dados do Projeto MAPEAR durante o evento Conexão Proteção — Diálogos sobre o Enfrentamento ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, realizado no SEST/SENAT de Barra Mansa. Os policiais Carlos Antonio de Araújo Carvalho e Carlos André Nogueira Fernandes, do Escritório Regional de Direitos Humanos da PRF, revelaram que o trecho de Barra Mansa concentra 14 pontos sensíveis, sendo dois classificados como críticos — os de maior risco de ocorrência de exploração sexual de crianças e adolescentes.
O que é o MAPEAR
Criado em 2003 por policiais rodoviários que observaram crianças em situação de vulnerabilidade durante patrulhas, o MAPEAR é um projeto bianual que percorre os 75 mil quilômetros de rodovias federais do Brasil identificando locais — postos de combustível, restaurantes, hotéis, oficinas — onde há maior risco de exploração sexual de crianças e adolescentes. Os pontos são classificados em quatro níveis: baixo risco, médio risco, alto risco e crítico.
É importante destacar que os pontos mapeados não são necessariamente locais onde a exploração já ocorre, mas onde as características do local aumentam o risco de que ela aconteça.
Os números nacionais: um retrato alarmante
Na 10ª edição do MAPEAR, referente ao biênio 2023/2024, foram identificados 17.687 pontos vulneráveis em todo o Brasil — um aumento de 83,2% em relação ao biênio anterior, que registrava 9.653 pontos. A expansão reflete o aprimoramento tecnológico do projeto, com maior alcance de fiscalização, e não necessariamente um aumento proporcional do crime.
A distribuição dos pontos por nível de risco no último biênio é a seguinte:
– Críticos: 807 (4,6%)
– Alto risco: 2.566 (14,5%)
– Médio risco: 5.237 (29,6%)
– Baixo risco: 9.077 (51,3%)
Um dado positivo: apesar do crescimento no total de pontos mapeados, a proporção de pontos críticos caiu de 6,6% para 4,6%, e os de alto risco de 19,5% para 14,5% — indicando que as ações da PRF estão reduzindo a criticidade dos locais ao longo do tempo.
O Rio de Janeiro no mapa da vulnerabilidade
O Estado do Rio de Janeiro ocupa uma posição preocupante no ranking nacional. Com 77 pontos críticos, o Rio é o segundo estado com mais pontos nessa classificação em todo o país, atrás apenas de Minas Gerais, que lidera com 111 pontos críticos. Em relação aos pontos de alto risco, o Rio registrou 213 ocorrências, ficando em terceiro lugar no Brasil, logo após Santa Catarina.
No total, o estado passou de 522 pontos mapeados no biênio 2021/2022 para 873 pontos no biênio 2023/2024 — um aumento de 67%.
O perfil das vítimas
Os dados da Operação DOMIDUCA — principal ação repressiva da PRF baseada no MAPEAR — revelam o perfil das crianças e adolescentes resgatados em situação de vulnerabilidade. Em 2023, foram resgatados 147 jovens em todo o país.
Desse total:
– 85% eram do gênero feminino
– 81,7% eram adolescentes entre 12 e 17 anos
– 40% tinham entre 12 e 15 anos
– 41,7% tinham entre 16 e 17 anos
– 13,3% tinham entre 6 e 11 anos
– 5% tinham até 5 anos
Os números são consistentes com os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024, que aponta que 88,2% das vítimas de estupro de vulnerável no país são meninas, e que 93% das vítimas de exploração sexual registradas em delegacias têm entre 10 e 17 anos.
A exploração que cresce e muda de rota
Um alerta importante trazido pelo MAPEAR é que a exploração sexual está migrando. Com o aumento das operações da PRF nas rodovias federais, o crime tem se deslocado para rodovias estaduais e, cada vez mais, para o ambiente digital — com uso de redes sociais e aplicativos de mensagem para recrutar e explorar vítimas.
Por isso, o projeto avança para uma nova fase, o MAPEAR 2.0, que prevê mapeamento anual em vez de bianual, uso de inteligência policial para rastrear o crime no ambiente digital e a transferência da metodologia para as Polícias Militares estaduais.
Como denunciar
Qualquer pessoa que suspeitar de exploração sexual de crianças e adolescentes pode ligar para o Disque 100 — serviço gratuito, disponível 24 horas, com sigilo garantido. Os dados do MAPEAR são públicos e podem ser consultados em gov.br/prfgov.br/prf.