25/04/2026 17:48

o que está faltando nas famílias

Quando pais se ausentam e telas tomam o lugar do afeto, a violência encontra solo fértil — e o Rio de Janeiro revela o mais brutal retrato dessa ruptura

Estado do Rio

Ela fala sem rodeios, com a firmeza de quem passou mais de uma década olhando nos olhos de crianças que o Brasil preferiu não ver. A juíza Vanessa Cavalieri, titular da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, chegou ao Senado Federal em 10 de março de 2026 para depor na CPI do Crime Organizado — e entregou um diagnóstico que sacudiu o plenário: a raiz da violência juvenil não está nas favelas. Está dentro de casa.

O depoimento da magistrada, que acumula quase duas décadas na linha de frente da Justiça da infância, expôs uma ferida que o debate público brasileiro insiste em ignorar: o colapso do vínculo afetivo entre pais e filhos. Um colapso que, segundo ela, não distingue classe social, CEP nem escolaridade dos responsáveis. Distingue, apenas, quem está presente — e quem abdica.

Por mais de dez anos, a juíza Cavalieri acompanhou o mesmo roteiro se repetir na Vara da Infância: meninos que chegam ao sistema de Justiça carregando histórias quase idênticas. Abandono precoce, escola que não segura, família que não vê. Cerca de 78% dos adolescentes que chegam à Vara abandonaram a escola ainda no sexto ano do ensino fundamental — momento em que a aprovação automática termina e as deficiências de aprendizagem acumuladas durante anos finalmente aparecem na superfície.

Crime não é uma escolha ideológica. É uma resposta de sobrevivência

crime não é uma escolha ideológica. É uma resposta de sobrevivênciaPara esses jovens, o crime não é uma escolha ideológica. É uma resposta de sobrevivência. Os três atos infracionais mais comuns entre adolescentes pobres — roubo, furto e tráfico — têm uma lógica brutal e simples: duzentos reais na mão, hoje. Sem entrevista de emprego, sem currículo, sem a humilhação de ser rejeitado por um mercado de trabalho que nunca os incluiu. No Rio de Janeiro, há mais de duzentos adolescentes aguardando em fila de espera por uma vaga de internação — enquanto a única empresa que nunca tem fila de espera para esse jovem se chama tráfico.

Mas foi a segunda parte do depoimento da juíza que mais perturbou o plenário — e que menos apareceu nas manchetes. Desde 2019, Cavalieri viu surgir um novo perfil de réu na Vara da Infância: adolescentes de famílias estruturadas, filhos de pais com ensino superior, moradores de bairros nobres, alunos de escolas privadas. Jovens que têm tudo que o senso comum considera proteção — e que ainda assim praticam os crimes mais bárbaros. Estupros virtuais. Tortura de animais. Homicídios transmitidos ao vivo em plataformas como o Discord. “A gente teve um jovem que ateou fogo a um morador de rua vivo e transmitiu ao vivo”, relatou a magistrada diante dos senadores. “Menino de classe média. Filho de pai e mãe presentes, com curso superior.”

O denominador comum não é a pobreza. É o vazio. A necessidade humana mais básica — ser visto, importar para alguém — não está sendo preenchida em nenhuma classe social. E quando a família falha nessa função primária, qualquer grupo que a cumpra se torna irresistível: facção, seita, comunidade virtual de ódio. O afeto chegou antes do crime. “Eles são recrutados nessas comunidades extremistas porque lá eles são vistos, lá eles são valorizados e lá a dor deles importa”, disse a juíza.

Há uma cena que se repete, de formas diferentes, em milhões de lares brasileiros: a família está no mesmo cômodo, mas cada um olha para uma tela diferente. Ninguém conversa. Ninguém pergunta como foi o dia. O silêncio é preenchido pelo scroll infinito. Os dados confirmam o que a intuição já suspeita. Pesquisa realizada pelo Porto Digital em 2025 revelou que 9 em cada 10 brasileiros acreditam que os jovens não têm apoio emocional e social suficiente. Ao mesmo tempo, apenas 20% dos pais afirmaram ter intenção de usar ferramentas de controle parental — evidência de uma postura de resignação diante de um problema que reconhecem, mas não enfrentam.

A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025 revelou que 92% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos acessam a internet no país — cerca de 24,5 milhões de jovens. Desse universo, 75% já têm perfil próprio em redes sociais. Um terço dessas contas é totalmente aberto ao público. E 61% das crianças têm práticas de exposição que as tornam vulneráveis a adultos mal-intencionados. O ECA Digital, lei sancionada em 2025 e em vigor desde março de 2026, foi uma tentativa legislativa de preencher essa lacuna: crianças até 16 anos só podem acessar redes sociais com conta vinculada à de um responsável. Mas legislação não substitui presença. E presença não se decreta.

Rio de Janeiro: uma lupa sobre o Brasil

O Estado do Rio de Janeiro é, nesse cenário, uma lupa sobre o que o Brasil inteiro vive em escala menor. Relatório do UNICEF em parceria com o Instituto Fogo Cruzado, publicado em 2025, revelou que mais de 800 mil crianças e adolescentes estudam em áreas dominadas por grupos armados na região metropolitana do Rio. A cidade da capital tem apenas 41,6% de suas escolas fora de zonas de influência do tráfico ou das milícias. Segundo o IBGE, a pesquisa PeNSE 2024 apontou que cerca de 1,54 milhão de jovens de 13 a 17 anos faltaram à escola nos 30 dias anteriores à pesquisa por não se sentirem seguros no trajeto. A violência, portanto, não está só do lado de fora do portão. Ela entra. Ela se instala nas salas de aula, nos corredores, na cabeça de crianças que deveriam estar pensando em matemática e estão calculando rotas de fuga de tiroteios.

O depoimento da juíza Vanessa Cavalieri no Senado não foi um ato de desespero. Foi um diagnóstico preciso entregue a quem tem poder — e frequentemente escolhe não usá-lo. A magistrada não pediu mais prisões. Não pediu redução da maioridade penal. Pediu o que nenhuma lei pode promulgar: conexão humana. A necessidade de vínculo, de afeto, de ser visto e de sentir-se importante é, segundo ela, a maior necessidade legítima que não está sendo atendida na infância e na adolescência brasileira hoje. E quando essa necessidade não é suprida pela família, ela será suprida por qualquer grupo que se disponha a fazê-lo. Facções sabem disso. Comunidades extremistas sabem disso. O Estado, aparentemente, ainda não aprendeu.

Enquanto isso, a geração que cresceu olhando para telas, sem que ninguém olhasse de volta para ela com genuíno interesse, segue buscando no extremo o que deveria ter encontrado no ordinário: alguém que note quando ela entra numa sala. Alguém que pergunte como foi o dia. Alguém que diga, sem tela intermediária, que aquela vida importa. O Brasil criou, ao longo de décadas, uma geração de crianças invisíveis — invisíveis para o Estado, para a escola, para os próprios pais. E uma criança que não é vista por quem deveria amá-la aprenderá, com a crueza do instinto, a ser vista de outra forma. A qualquer custo.

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